AS VERTENTES DO MESSIANISMO

AS VERTENTES DO MESSIANISMO

Tiago Sant'Ana

No estudo passado aprendemos acerca das profecias que anunciavam o messias, o ungido de Deus. De maneira geral podemos perceber que estas surgiram em momentos de profundo desgaste emocional e de grande desesperança do povo de Deus. Muitas dessas surgiram em épocas de cativeiro ou até mesmo pós cativeiro. Buscavam renovar o animo de um povo perdido no espaço e no tempo de seu próprio território fazendo com que esses vissem mais uma vez a poderosa mão do Senhor retirando as agruras e os ressentimentos do cativeiro que prevalecia ainda em seus corações. Muitos já haviam saído do poder opressor, mas continuavam sendo assombrados pelo fantasma de suas vozes e chicotes.
Nesse capitulo veremos como o messianismo nasce no meio de um povo oprimido. Quais são suas necessidades e prerrogativas? Convido você a se lançar nessa analise sócio religiosa e deixar com que o Messias também alcance os patamares de dor e desesperança do seu coração.

1. MOVIMENTOS MESSIÂNICOS

Vamos entender o que é necessariamente o messianismo: O messianismo é, de um modo geral, um conjunto de crenças partilhadas por grupos ou povos marginalizados que esperam pela vinda de um tempo quando alcançarão uma nova situação, a de livres da marginalidade e participantes do bem estar comum, e os movimentos que esses grupos ou povos empreenderam na direção da materialização das esperanças. Conseguimos entender a partir desses movimentos que surgem na humanidade um pouco do sentimento dos marginalizados. Sua trajetória de menosprezoe seu grito entalado na garganta. Uma minoria governante, suprimia as forças de uma maioria que era conduzida como animais de rebanho que apenas serviam como relações de bens de consumo e produção, onde a minoria favorecida arrancava sua carne, couro e mão de obra necessária para seu bel prazer. Tempos de exploração que usufruem do oprimido como carvão para seu maquinário. A engenharia egípcia se abasteceu desses indivíduos e, apesar da recente arqueologia acentuar que empreendimentos tais como a pirâmide não foram construídas por escravos, os judeus sofreram uma vida agrilhoada ao abastecimento dos celeiros do Egito e fabricação de tijolos para suas fortificações e instalações, pelo aparente perigo que suscitavam aos olhos do Faraó. Disse ele ao seu povo: "Vejam! O povo israelita é agora numeroso e mais forte que nós. Temos de agir com astúcia, para que não se tornem ainda mais numerosos e, no caso de guerra, aliem-se aos nossos inimigos, lutem contra nós e fujam do país". Estabeleceram, pois, sobre eles chefes de trabalhos forçados, para os oprimir com tarefas pesadas. E assim os israelitas construíram para o faraó as cidades-celeiros de Pitom e Ramessés. Todavia, quanto mais eram oprimidos, mais numerosos se tornavam e mais se espalhavam. Por isso os egípcios passaram a temer os israelitas, e os sujeitaram a cruel escravidão. Tornaram-lhes a vida amarga, impondo-lhes a árdua tarefa de preparar o barro e fazer tijolos, e executar todo tipo de trabalho agrícola; em tudo os egípcios os sujeitavam a cruel escravidão. O medo de uma insurreição fez o Faraó proteger seu poderio descarregando pesados trabalhos, afim de que, fosse impossível para os judeus terem forças para empunhar espadas e lanças contra seus exércitos. E, não apenas pelo possível desejo bélico, mas principalmente pela incapacidade que promovia a estes de poderem sonhar com a liberdade ou como uma terra que poderiam chamar de sua e demandarem forças nesta para construírem as propriedades para si e para seus filhos. O grito de libertação se tornou ensurdecedor. Geração após geração se levantava e após 430 anos (Êx 12.40), Deus ouviu o clamor do seu povo e lhes enviou um libertador. O movimento messiânico nasce nessas bases de renovo de ares. É como se conseguissem captar, mesmo que uma minoria, um ar de liberdade em meio aos castigos e as duras penas. Esse que respiraram esses ares buscam inspirar seus compatriotas dando-lhes subsídios de vida em meio a morte. Renovo de forças em meio a fraquezas. Nostalgia de uma terra fértil em meio a deserto e aridez prevalecente na alma. Esse grupo empreende a partir de então, como fato histórico, e não apenas como uma idealização pueril, uma atividade visando à concretização das esperanças messiânicas.

1.1- As causas dos movimentos messiânicos Esses movimentos trazem consigo causas sociais e religiosas e não conseguem prevalecer sem essas forças constituintes. São diagnosticadas em diferentes épocas e povos, entretanto, seguem as mesmas causas sociais e religiosas.


1.1.1- Causas sociais Há todo um aparato elaborado para a construção da dominação e de uma futura e não prevista esperança de liberdade por parte do dominado. Segue abaixo uma explanação adequada acerca de um aspecto sutil de demanda de força dominadora: As camadas dominantes, que se encontram integradas nesse sistema (mecanismos simbólicos que reproduzam e legitimem as dominações), apresentam uma ideologia otimista, definindo seus padrões sociais e os impondo às classes dominadas. Por um lado, as camadas dominadas, não integradas, como consequência da subordinação a que estão submetidas não podem sequer elaborar seus próprios valores e padrões sociais, sendo-lhes impostos os da classe dominantes. Para que este tipo de sistema tenha sucesso, é preciso que a ideologia consiga justificar e legitimar a dominação como natural e necessária para as classes dominadas, ou seja, que aceitem a dominação como um fato normal. Claro que citamos acima uma ação dominadora de prática sutil e de assimilação acidental, isto é, ela se passa como um remédio amargo mas que por ser desta forma aplica uma cura imediata e proposital. Porém, as contra indicações desse remédio se provam em pouquíssimo tempo de caráter irreversível, pois o mesmo não cura mas ministra doenças mais profundas e até mesmo mortais. Para o dominador se este não for assimilado por parte da sociedade, se ele encontrar pelo caminho movimentos de repulsa e desacordo com sua ideologia, o mesmo demoniza esses indivíduos os nomeando, como antiprogressistas, antipovo, antivida ou qualquer conceito que continue a conduzir as mentes ludibriadas, porém o que o dominador não consegue deter é a força autônoma desses movimentos de decomposição de suas ideologias com aparência de otimismo e dissolvição de problemas. Os grupos marginais se levantam com uma identidade positiva a respeito de si mesmo e da bandeira de discórdia que levantam diante de seus dominadores. Nesse terreno se propõe um tipo de religião que exerce um papel fundamental para o surgimento dos movimentos messiânicos.

 1.1.2- Causas religiosas Vale aqui diferenciar a religião que é mera expectadora, daquela que exerce papel de protagonista na história da humanidade. Durante muito tempo a religião, e, principalmente o cristianismo se preocupou com as atenuantes de uma vida espiritual. Caminhos e roteiros sagrados, jejuns e memorizações de textos santos, eram condições indispensáveis para o enfretamento do mundo espiritual. Esse mundo era unilateral, isto é, não existia outro, portanto apenas se aplicavam em se preparar para ele. O filosofo Nietzsche, certa vez asseverou que o cristianismo era uma espécie de platonismo popular. Dentre tantos conceitos propostos por essa corrente de pensamento da filosofia grega, estava o mundo ideal. Portanto, podemos partir do princípio que tal como Platão idealizara seu mundo, o cristianismo criara o seu. Ou seja, o paraíso seria uma rota de fuga diante dos problemas da sociedade. Uma desculpa para não realizarmos mudanças efetivas nesse mundo, pois esperamos o porvir. Porém, o aperfeiçoamento pessoal, o sinal de uma vida santa está em condições distintas ao aspecto de fuga, pois Cristo caminhou nessa terra em direção aos impuros para torna possível a pureza deles e não ao contrário, isto é, fugindo do impuro com receio de se tornar tal como esses. Já que é sal e para salgar. E, para salgar tem que ocorrer um envolvimento integral diante do sinal emergencial lançado pela sociedade. Como agente de transformação a religião respira e faz respirar a construção de um reino de justiça, paz, virtude e vida neste mundo. E para que isso se torne possível os movimentos messiânicos clamam pela vinda do Messias, do ungido, pois somente ele promove os meios para a instauração desse reino.

2. FATORES CONSTITUTIVOS DO MESSIANISMO

Alguns fatores estão presentes nos movimentos messiânicos estes constituem a estruturas do messianismo:

2.1 – Formação da esperança Messiânica

Nasce em meio a dor e angustia dos marginalizados e oprimidos. Em meio a profundas decepções e diante de adversidades aparentemente irreversíveis. Como na profecia que estudamos na semana passada Exulta muito, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti: Ele é justo e vitorioso. Humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta. Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém; Será eliminado o arco de guerra. Ele anunciará a paz às nações. O seu domínio irá de mar a mar E do rio às extremidades da terra (Zc 9,9-10). Zacarias inicia a sua pregação apelando para o povo abatido, diante das ruínas da cidade e do Templo de Jerusalém, pelos sucessivos reveses políticos: Exulta! Grita de alegria! (9,9). Tomarei do cimo do cedro, Da extremidade dos seus ramos um broto E plantá-lo-ei eu mesmo sobre monte alto e elevado. Plantá-lo-ei sobre o alto monte de Israel. Ele deitará ramos E produzirá frutos, tornando-se cedro magnífico, De modo que à sua sombra habitará toda espécie de pássaros, À sombra dos seus ramos habitará toda sorte de aves. E saberão todas as árvores do campo que eu, Javé, é que abaixo a árvore alta e exalto a árvore baixa; que seco a árvore verde e faço brotar a árvore seca. Sim, eu, Javé, o disse e o faço. (Ez 17,22-24). Em meio ao desespero e à angústia do povo exilado, Ezequiel reafirma a pregação dos profetas que vieram antes dele. A atuação do messias seria semelhante a de um pastor.

2.2 – Tempo de espera messiânica

 Os movimentos messiânicos apontam para um reino pelo qual se espera, portanto futuro. O reino esperado tanto pode ser algo totalmente novo, como poderá também ser a volta a um passado ideal, geralmente uma época de prosperidade. Em ambos os casos, há o ideal de santidade e perfeição. Temos profundamente arraigado no povo judeu os anseios desse Reino na nostalgia proclamada pelo Éden. Portanto, esse paraíso criado por Deus não era apenas um início maravilhoso que foi deturpado pela vontade pecaminosa e cheia de soberba do homem, mas sim sua meta, seu objetivo. O retorno a um tempo de sossego e de iguarias, de vida abundante e de paz, de acordo com os seres que o rodeava e de profunda assimilação do todo, de comunhão plena e constante com Deus sem interferências dos entretenimentos provocados pelo que o rodeava. Tempo de espera não significa passividade; ao contrario, é pela participação dos adeptos que a vinda do Reino se realiza. Assim o messianismo se mostra como uma força prática de protesto e de transformação, e não como uma passiva espera de um reino do além.


2.3 – Mentalidade messiânica

A mentalidade messiânica apresenta-se com algumas crenças básicas. Dentre elas, a crença na interferência de Deus, e consequente transformação do mundo, e a crença de que essa interferência se dará através do envio de um salvador, responsável por redimir os pecadores e conduzi-los a Deus, também é fundamental a crença de que o fim dos tempos será precedido de sinais que somente o Messias será capaz de compreender e explicar aos seus seguidores. Estas ideias bases constituem-se como centrais para a formulação desta mentalidade.

 2.3 – Messias

 A – Etimologia A palavra “messias” significa “ungido”, e ocorre no AT para significar o rei de Israel e o sacerdote. A palavra “mashiah” (hbr.) se traduz no grego para “christós”, de onde deriva o nosso Cristo. A tradução dos LXX (tradução grega do AT) usa frequentemente a palavra “christós” para designar a Deus, mas também as personagens que, em consequência da unção sagrada, real (sacerdotes e reis) ou metafórica (p. ex., Ciro, rei da Pérsia: cf. Is 41, 1), cooperaram para a situação dos desígnios de Deus a respeito de Israel, e ao futuro Ungido (1Sm 2, 10; Sl 2, 2; Dn 9, 25). Cronologicamente, foram os sacerdotes os primeiros a receberem esta designação, em seguida os reis, e posteriormente o esperado interventor de Deus. O messias é fundamentalmente um enviado de Deus para trazer o advento do Reino divino na terra, sendo que para isso conduz a vitória do bem sobre o mal (Cl 3.15) e corrige as distorções provocadas pelas vontades humanas em relação ao Reino (sermão da Montanha). É o salvador que traz a redenção coletiva (Jo 3.16) e terrena (Rm 8.19-22).

3. MOVIMENTOS MESSIÂNICOS CONTEMPORANEOS A JESUS

Os escritos de Flávio Josefo (m. 100 d.C), especialmente as Antigüidades Judaicas, que foi historiador judeu contemporâneo a Jesus ou ao menos à I Guerra Judaica e à destruição do Templo (66-70 d.C), constituem a única fonte histórica para se conhecer os movimentos messiânicos apesar de ter sido protegido do Imperador Vespasiano e colaboracionista dos romanos, das suas obras se pôde apreender elementos importantes para a reconstituição histórica do período. Flávio Josefo caracteriza os rebeldes como criminosos ou maníacos religiosos, o que não corresponde à realidade. No presente estudo, tem-se um elenco dos “messias” que surgiram no período, geralmente chamados “falsos-messias”, embora isto não tenha um teor essencialmente pejorativo, pois estes homens surgiram na história, motivados pelo honesto propósito de lutar pela libertação de Israel. - Judas Galileu: liderou uma revolta no ano 6 d.C (At 5, 37); esta revolta deu o impulso decisivo para a formação do movimento zelota, originário da Galiléia: ele foi filho de um tal Ezequias que se proclamou rei do povo, e devastou os distritos das fronteiras com a Síria, eliminado por Herodes antes mesmo de assumir o governo; o líder foi morto, os membros do movimento se dispersaram, e o procurador Tibério Alexandre mandou crucificar os seus dois filhos, Jacó e Simão; - Anthronges (4 aC - 6 dC), chefe de bandos (cada um de seus quatro irmãos chefiava um bando) com pretensões reais, organizou entre outros levantes uma emboscada contra os soldados romanos em Emaús; - Simão, ex-escravo de Herodes, se proclamou rei dos judeus; alguns “bandidos” apoiaram o seu movimento; - Um Samaritano anônimo convocou o povo para o Monte Gerizim (lugar de adoração para os samaritanos – Joao 4.20) onde revelaria o lugar onde Moisés teria escondido os utensílios sagrados do Santuário. Pilatos mandou para lá a sua tropa e matou a maioria; - Teudas, pelo ano 44 d .C, se achava profeta da tradição de Moisés, conduziu muitos de seus seguidores até as margens do rio Jordão, com a promessa de que ali demonstraria seus poderes proféticos, dividindo as águas e fazendo os seus seguidores passarem incólumes pelas águas, tal qual os seus antepassados passaram pelo Mar Vermelho. O procurador romano Fado prendeu muitos membros deste movimento, inclusive o seu líder, o qual foi decapitado, tal qual um criminoso; - Benjamin, o Egípcio, entre os anos 55 e 60 d.C, conseguiu arrebanhar quatro mil seguidores combativos e os reuniu no Monte das Oliveiras, onde lhes disse que com os poderes que Deus lhe havia dado, faria com que as paredes da cidade ruíssem, tal qual fez Josué com as paredes de Jericó; o procurador Félix marchou para o Monte das Oliveiras, e muitos dos seguidores de Benjamin foram mortos, embora seu líder tenha conseguido escapar (esta rebelião é citada em At 21. 38); - No ano de 62 d.C, temos um messias anônimo que promoveu outra revolta contra os romanos tendo promovido uma marcha para o deserto, onde teria prometido a seus adeptos, segundo Josefo, “libertação e alívio da sua desgraça”; - Simão bar Giora (66 d.C), líder apoiado por “bandidos”, pois emergiu de camponeses dois anos depois que a Guerra Judaica começara; apesar de ter liderado seu movimento por dois anos, foi preso com grande alarde, açoitado e executado como rei dos judeus; - João de Giscala (66 d.C), chefe de salteadores, teve ampla liderança na rebelião popular, equivalente de Simão na Galiléia setentrional, com quem se aliou e fracassou; foi simplesmente preso e executado. Todos estes líderes e seus movimentos, apesar do fracasso, manifestaram a fé do povo em Deus, que em dado momento, enviaria o seu ungido, o seu Messias, por compaixão a Israel, para proporcionar a sua libertação, tal qual haviam predito os profetas e sábios. Estas são as duas características fundamentais destes movimentos: respaldados pelas tradições judaicas, eles são tentativas de libertar Israel do domínio Romano.

4. JESUS DE NAZARÉ E OS MOVIMENTOS MESSIÂNICOS

Jesus teve reservas quanto ao título de messias e o Novo Testamento assinala que ele não tinha pretensões de um messianismo temporal, político e triunfalista, embora o Novo Testamento o apresente servindo-se do título messiânico de “Filho de Davi” (Mt 22, 41-46: aqui não é negada a descendência davídica do messias, mas questionada, quanto ao caráter exclusivamente temporal). A postura de Jesus foi conservar o que parecia válido nas tendências messiânicas de seu tempo e recusou as que não se alinhavam com o seu Evangelho. A palavra “Cristo”, como já se disse, é derivada da palavra grega “Christós”, e se tornou nome pessoal de Jesus de Nazaré, pois a Igreja primitiva o identifica com o Messias do AT e do judaísmo, embora o título de messias não seja suficiente para significar a totalidade de sua pessoa e de sua missão; é por isso que a Jesus são atribuídos uma série de outros títulos. É verdade também que não se podia atribuir a Jesus o título de Messias literalmente, como era entendido pelo judaísmo contemporâneo a ele, por possuir uma compreensão equívoca e mistificadora, de forma que as ocorrências deste título nos Evangelhos devem ser encaradas com reservas. Mas trata-se de um silêncio relativo, pois o messianismo é parte importante do Antigo Testamento, e estava presente nas massas que circundavam Jesus, embora ele não possua ainda um caráter definitivo, ou seja, cada grupo possuía expectativas messiânicas segundo seus interesses. Mas, podemos apreender algumas constantes comuns dentre estes grupos: o centro de interesse é sempre a reconstituição da nação, ou seja, a libertação da dominação romana, a restauração de Israel. No rabinismo encontramos além da designação de Messias (“christós”), outros títulos messiânicos: “Davi”, “Germe (rebento) de Davi”, “Redentor”, “Rei de Israel”, “Rei-Messias”. É notável que Jesus tenha uma postura reservada com relação ao título de Messias. Em outras palavras, Jesus nunca se denominou como Messias, embora a sua atividade seja nitidamente messiânica, como demonstram a sua pregação sobre o despontar do Reino de Deus, a cura de doenças e possessão de demônios, ressuscitar mortos e o perdão dos pecados, características do Messias esperado. (FAÇA A COMPARAÇÃO ENTRE A PROFECIA DE ISAIAS 35. 5,6/ 61.1 E LUCAS 7.18-22) Jesus, entende o Messias como o Filho do homem que sofre (Mc 8, 31). O título Messias/Cristo passou a ser nome próprio de Jesus, ao lado de outros títulos (Senhor, Filho, Santo, Justo, Servo, Sacerdote etc.), que ajudam a precisar qual o seu messianismo: ele é a personalidade salvadora prometida por Deus nos últimos tempos (At 3, 18-20) que, glorificado por Deus na Ressurreição, concede as forças criadoras da vida nova dos fiéis, e é o iniciador e fundador de uma ordem mais alta de vida, cabeça da nova humanidade (At 7, 35).

4.1 – Semelhanças

A semelhança básica entre Jesus e os demais movimentos messiânicos da Palestina, seus contemporâneos, reside na plena solidariedade e comprometimento com a realidade de opressão e de dominação estrangeira, na qual estavam inseridos. E, como os demais movimentos, o movimento de Jesus apresenta um caminho diante da crise, o qual perseverou, após o desaparecimento de seu Mestre. Esta semelhança nos indica uma característica de Jesus e de seu movimento, que não pode ser desconhecida ou descaracterizada que é a sua inserção no contexto em que existiam, bem como, o fato de ter liderado um movimento em meio à dominação, mesmo que este seu movimento não tenha práticas semelhantes aos demais.

4.2 - Contraste Jesus teve muita liberdade ao se apresentar ao seu povo, e ao propor a sua mensagem tão original quanto coerente, com toda a sua ação. Pode-se perceber que o seu messianismo não é só pela atribuição que o NT e a Igreja derem a sua pessoa mas, antes, pelas suas atitudes. Antes, tem-se um elenco dos contrastes entre Jesus e os demais movimentos messiânicos. Jesus se apresenta como um pacifista que é uma postura complementar a seu envolvimento com o contexto de opressão em que vivia para o qual ele não deixou de apontar uma solução, a partir do seguimento exigido a seus simpatizantes e adeptos de seu movimento. Esta solução está descrita, não só por suas palavras e seus atos, mas também no referido seguimento, no discipulado. E dos discípulos Jesus pede mais que a dita “não-violência”, pede o perdão, meio capaz, entre outros, de se estabelecer as relações novas, e assim um novo Israel. Diversamente de outros movimentos de seu tempo, Jesus manteve contatos com diferentes tipos de pessoas, o que chocou os fariseus quando o viram com Levi e outros publicanos; e chocaria os zelotes, por serem os publicanos colaboracionistas dos romanos e até chocou os apóstolos ao falar com a Samaritana (Jo 4). Esta breve descrição da liberdade de Jesus, sempre presente em sua vida, é uma das formas de se reconhecer a originalidade de sua pessoa e, assim, da originalidade de seu messianismo, como se pretende descrever a seguir.

4.3 - Caracterização: que messias foi Jesus?

 Jesus e o Batista - Fazia parte das expectativas messiânicas o papel do precursor do Messias. Jesus teve como precursor a pessoa de João Batista, e teria iniciado a sua missão profética na sua órbita. Ambos eram reconhecidos como profetas, o que lhes confere uma originalidade diante do povo, frente aos outros líderes populares daquela época (zelotes, escribas, fariseus etc.). Posteriormente, Jesus se afasta do círculo do Batista para dar prosseguimento à sua missão. Jesus era visto como um continuador da sua obra (Mc 8, 28) e até pensavam que era o Batista ressuscitado. Dada a proximidade entre eles, o NT insiste com freqüência na superioridade de Jesus frente ao Batista (Jo 1, 27). Desde o pós-exílio, Israel já não mais tem profecia (Lm 2, 9; cf. Sl 74,9), mas já se esperava o retorno do profetismo (Dt 18, 15), sinal da renovação, de “tempos novos” (Jl 3, 1-5). O Batista e Jesus são o marco do renascimento do profetismo em Israel, embora o profetismo não tenha desaparecido totalmente, e serão seguidos por outros profetas, verdadeiros e falsos. Os profetas deste período souberam ler os sinais dos tempos, captaram o apelo de Deus no clamor do povo, e tornaram-se porta-vozes das suas aspirações com uma reflexão mais madura que os movimentos messiânicos que os precederam. Jesus, o Reino de Deus e os pobres - A pregação do Batista, o precursor, já tratava do Reino de Deus. Jesus retoma esta pregação, já conhecida de Israel pela pregação profético-apocalíptica. Jesus prega a chegada do Reino e afirma que o Reino já chegou com a sua pessoa (Mt 12,28). E Jesus envia seus discípulos a pregarem o Reino (Lc 10, 11). Várias são as imagens em toda a Bíblia, que descrevem o Reino de Deus mas é possível apreendermos um termo-base na pregação de Jesus. O Reino de Deus consiste basicamente na realização da vontade de Deus, na terra, como no céu (Mt 6, 10). Este termo-base vai tomando corpo, conforme se aprofunda a compreensão a respeito da missão de Jesus. Ainda no AT, o Reino de Deus implicava na intervenção de Deus na história, e cada etapa do AT matiza diferentemente esta intervenção para alterar a ordem vigente, promovendo justiça e paz verdadeiras, prioritariamente para os pobres e marginalizados. Com o fracasso da monarquia em Israel, vai surgindo uma nova concepção de Reinado de Deus e, assim, fazendo emergir a espera por um messias, atento às necessidades dos pobres, capaz de operar a reconciliação, ou seja, a paz que é fruto da justiça (Is 32, 17). Jesus, de fato, é este Messias esperado que evangeliza os pobres (Mt 11,5; Lc 4, 18) e lhes diz que deles é o Reino (Lc 6,20). Os pobres do tempo de Jesus são tantos os que passam necessidades, bem como aqueles que são desprezados pela sociedade (pecadores, publicanos, prostitutas etc.). Para eles, Jesus apresenta a Justiça de Deus que inaugura o Reino em meio aos homens, e lhes indica o novo caminho da história. Este caminho do Reino, manifestado pela conduta de Jesus bem como em sua pregação, se dá na prática do amor, capaz de transformar a estrutura de injustiça: daí a necessidade da solidariedade entre os homens. O amor aos homens por amor de Deus, implica no perdão e na justiça. Temos aqui, como que, um tripé das exigências para acolhermos Reino de Deus: amor, perdão e justiça; um é expressão do outro, um se realiza juntamente com os demais; não se tem um se, se despreza o outro. Assim, tal qual os profetas anunciavam a reconciliação operada por Jesus, por seu amor à humanidade, deve repercutir em justiça para os pobres, condição para que a humanidade acolha o Reino de Deus. A literatura apocalíptica em meio às perseguições onde se era elaborada, indicava que o reinado de Deus se iniciaria com o fim da era do Inimigo, do mal, e com a instauração da era messiânica da paz e harmonia, e da soberania de Israel. Jesus nos apresentou o reinado de Deus, evangelizando os pobres, indicando a sua libertação da opressão e marginalização desta encarnação do mal experimentada pelos pobres. O Reino de Deus se dá a partir de relações novas, e não pelo recurso às armas, pois o Reino de Deus já age em meio aos homens, brota, cresce, amadurece, sem que o homem precise intervir, mas sempre corresponder. E são os marginalizados o denominador comum destas novas relações, onde já não existe excluídos, mas uma relação de irmãos, que se amam. Jesus, o Filho do Homem - A manifestação de que Jesus é o Filho do Homem, é uma das características messiânicas de Jesus, que foi sendo revelada processualmente, durante a sua vida pública por suas palavras e ações. A expressão “Filho do Homem” (Dn 7) remete a grandes discussões exegéticas, mas é possível apreender um consenso mínimo deste título cristológico, e perceber a sua relação com a messianidade de Jesus, pois os títulos de “Messias” e “Filho do Homem”, foram difundidos, ou seja, as imagens do Filho do Homem, foram transportadas para os Messias. Jesus se apresenta como Filho do Homem, sempre na terceira pessoa. Nesta apresentação de Jesus, tendo em conta que as figuras do Messias, do Servo Justo-Exaltado e do Filho do Homem foram reunidas, temos uma explicação do seu messianismo, que não se enquadra em qualquer expectativa humana, mas que as transcende e completa. A Morte de Jesus - Jesus foi condenado à morte capital em dois processos: religioso e político, necessariamente por ter travado conflito com as autoridades religiosas e políticas da Palestina de seu tempo, que vivia sob a dominação do Império Romano. Estas autoridades tramaram a forma de eliminar Jesus. Do ponto de vista religioso, Jesus critica o judaísmo que oprime o homem, que o excluí da vida, seja por parte dos detentores dos ofícios religiosos, os saduceus, seja por aqueles que determinam e aplicam as leis de pureza ao povo, os fariseus. Os Evangelhos mostram que estes dois partidos se unem para tratar da morte de Jesus. Vemos assim, que a religião é capaz de matar, e mata até Deus. Embora os Evangelhos assinalem que Pilatos teria reconhecido a inocência de Jesus, aquele, mesmo tendo lavado as mãos, permitiu que a pena capital fosse aplicada a Jesus, tal qual um revolucionário, e é bem provável que tal pena lhe tenha sido aplicada por ter se apresentado como rei dos judeus. A Ressurreição de Jesus - A ressurreição é histórica pois foi algo contatada pelos discípulos e é ponto basilar de nossa fé (I Co 15. 13,14) aconteceu com os discípulos de Jesus após a sua morte, que garantiu a continuidade do discipulado, ou seja, uma comunhão com o Mestre, inclusive como seu destino de perseguido, e também como participação na sua exaltação. Pela ressurreição de Jesus, puderam os seus discípulos experimentar a vida nova proporcionada pelo Mestre, bem como reconhecer o messianismo original de Jesus e o messianismo do Novo Israel, que se inicia com o discipulado do Nazareno, e que deve cobrir todas as nações da terra (Mt 28, 19) até a pátria definitiva (Hb 11, 16). Conclusão Duas ideias são fundamentais para a compreensão do messianismo de Jesus frente aos demais movimentos messiânicos seus contemporâneos. Em primeiro lugar, Jesus Cristo, o verbo eterno de Deus à humanidade, e primeiramente ao povo no qual se encarnou, traz uma mensagem original, uma radical novidade, o Evangelho do Pai de forma que ela não se apresenta em analogia com nenhum outro itinerário projetado e pensado, a partir do passado de Israel. Jesus traz uma mensagem de vida e de fraternidade conquistada pelo compromisso do amor, da justiça e do perdão, elementos necessários para o discipulado, o qual é animado pela força de seu Espírito. É esta a contribuição de Jesus para a humanidade, sem deixar de responder aos desafios da época em que se encarnou, e sem deixar de se referir às realidades que o cercavam. Mas não se pode deixar de considerar que Jesus foi um homem de seu tempo, plenamente consciente e comprometido com os conflitos de seus contemporâneos, e a sua original mensagem assume todas as aspirações imediatas dos movimentos populares, messiânicos ou não, daquela época. E tal foi o seu comprometimento com a sua realidade que foi morto pelos detentores do sistema da época. Estas são duas características básicas do messianismo de Jesus frente às válidas aspirações dos movimentos messiânicos de seu povo, no período em que nele viveu.

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